segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Cinquenta tons de submissão


Costumo ser bastante curiosa, então quando começaram a aparecer na internet vários comentários sobre um tal livro classificado como “literatura erótica para mulheres”, fiquei curiosa para saber do que se tratava. Consegui uma cópia do “Cinquenta tons de cinza” e comecei a leitura, afinal quando não estou trabalhando em minha dissertação de mestrado prefiro ler coisas mais... Fáceis.  Na verdade se trata de uma trilogia, da autora britânica Erika Leonard James, que nasceu na internet, como uma fan fiction da saga dos vampiros. Conforme indica o nome, fan fictions são tramas escritas por fãs que, inspirados em obras de sucesso, se aventuram a desenvolver suas próprias histórias. O “Cinqüenta tons de cinza” é seguido por “Cinquenta tons mais escuros” e “Cinquenta tons de liberdade”, e narra a história de Christian Grey e Anastácia Steele, ele é um multimilionário cheio de sombras escuras em sua história de vida, como o título já indica, e ela é uma estudante de literatura inglesa recém formada. Anastácia conhece Christian em uma entrevista feita para o jornal da universidade, na entrevista ela substituía uma amiga que ficou doente e não pôde comparecer. A partir daí a autora narra o envolvimento do casal. De início Steele é cotada para ser mais uma submissa em uma relação sadomasoquista, mas com seu jeito tímido e desengonçado conquista Grey. Enfim...quem quiser saber mais da história, leia o livro.
O que me importa aqui são as minhas considerações, esse livro já obteve 47 milhões de cópias vendidas em alguns meses. A história na minha opinião é fraca, não possui grandes detalhes, nem grandes acontecimentos, parece apenas um pano de fundo para narrar as relações sexuais cheias de posições e objetos estranhos. As cenas de sexo são narradas de forma interminável chegando a serem chatas em muitos casos. A escrita é mais simples que uma receita de bolo, não exigindo grande esforço de compreensão por parte do leitor.
Christian Grey é um homem controlador que quer ter sempre o poder em suas mãos, sente prazer em dominar e açoitar mulheres que devem assinar um contrato prévio, que dê permissão para que ele o faça. Mas a grande jogada da autora para amenizar essa situação violenta, é que no contrato também consta que a “sub” será sustentada por ele em todos os âmbitos da sua vida, usufruindo dos luxos de uma vida com um milionário.
Anastácia é uma jovem independente que busca uma carreira profissional, mas à medida que se envolve com Christian se vê diante de um homem que quer controlar todos os seus passos. Mas a autora ameniza essa questão definindo Grey como uma vítima, que faz aquilo como reflexo de sua história triste. O que mais me chama a atenção é que o tempo todo Anastácia tenta aliar seu trabalho, sua independência e sua vida profissional ao amor de um homem lindo, rico e controlador. O embate entre a individualidade da moça e a necessidade de controle de Christian está o tempo todo em evidência.
O que percebo é que esse livro é mais um mecanismo discursivo que busca convencer as mulheres e as subjetivarem a uma vida de subordinação. O amor serve como bandeira que vem antes da existência feminina, não importa se o cara é louco, cheio de complexos, gosta de dominar e de surrar mulheres, o que importa é que ele a ama. Nos últimos tempos parece estar aparecendo uma enxurrada de discursos para convencer as mulheres a voltar ao modelo patriarcal de “sombra de um homem”. Anastácia representa isso, uma jovem em busca de sua própria vida e realização pessoal, mas que é sucumbida por um amor maior do que a própria vida. Apesar de resistir, acaba de certa forma desistindo de sua independência por um homem que pode sustentá-la em uma vida luxuosa e a quem ela deve amor, respeito e obediência. Anastácia não se tornou uma submissa de Christian para as relações sadomasoquistas, mas se tornou a mulher clássica, a mulher em seu estado natural, submissa ao homem não por um contrato, mas pela natureza. No fim das contas Anastácia se torna a senhora Grey, mais uma posse do glorioso Christian, realizada com o seu casamento e com a maternidade, tudo o que uma mulher supostamente poderia querer.
Na minha opinião, esse livro fez tanto sucesso por trabalhar com as maiores ilusões impostas para as mulheres, infelizmente submetidas a discursos que as constituem como donzelas indefesas em busca de um príncipe, muitas mulheres se espelham nessas histórias, alimentam esperanças de um dia terem a “sorte” viverem um amor assim. O casamento, o amor e a maternidade são discursos construídos para a subjetivação feminina, mas ainda são os maiores anseios de muitas mulheres.
Cinquenta tons de Cinza é mais um discurso de subjetivação feminina que ajuda a propagar mulheres inertes, amorosas, dóceis, femininas, fracas e submissas. Gostaria de não escrever mais sobre as formas de subordinação das mulheres, mas infelizmente cada dia que passa estamos mais sujeitas a esses discursos, que parecem querer nos mostrar que nosso destino é esse e que toda luta por uma vida diferente é em vão.

terça-feira, 6 de março de 2012

Entre flores e espinhos: o dia "8 de Março"

A partir desta semana, inúmeras serão as mensagens bonitinhas direcionadas às mulheres em “comemoração” ao dia Internacional da Mulher em 8 de Março. As histórias que remetem à criação do Dia Internacional da Mulher alimentam o imaginário de que a data teria surgido a partir de um incêndio em uma fábrica têxtil de Nova York em 1911, quando cerca de 130 operárias morreram carbonizadas. Algumas pesquisas dizem não haver comprovação histórica sobre este acontecimento, outras o situam como um acontecimento importante para as lutas feministas ao longo do século XX. A questão fundamental é que ao longo deste século, inúmeras foram às reivindicações e protestos das mulheres, sobretudo as operárias, para melhores condições de vida e de trabalho. Segundo Hobsbawm, as mulheres eram consideradas mão-de-obra barata e trabalhadoras menos rebeldes que os homens, sendo então preferidas pelos donos das fábricas visando maiores lucros. As operárias denunciavam a extensa jornada de trabalho, as condições precárias, os salários medíocres e o trabalho infantil. Em várias datas ocorreram protestos que contribuíram para que ao longo do tempo as questões femininas alcançassem maior visibilidade.
 Mas foi somente em 1945 que a Organização das Nações Unidas (ONU) assinou o primeiro acordo internacional que afirmava princípios de igualdade entre homens e mulheres. Nos anos 1960, o movimento feminista ganhou corpo, em 1975 comemorou-se oficialmente o Ano Internacional da Mulher e em 1977 o "8 de março" foi reconhecido oficialmente pelas Nações Unidas. "O 8 de março deve ser visto como momento de mobilização para a conquista de direitos e para discutir as discriminações e violências morais, físicas e sexuais ainda sofridas pelas mulheres, impedindo que retrocessos ameacem o que já foi alcançado em diversos países", explica a professora Maria Célia Orlato Selem, mestre em Estudos Feministas pela Universidade de Brasília e doutoranda em História Cultural pela Universidade de Campinhas.
Atualmente o cunho político do dia 8 de março foi esquecido, virou mesmo uma data fantasiosa de homenagem às mulheres, é comum ver patrões dando florzinhas para suas funcionárias, e em vários locais isso também ocorre. Lembro-me de quando criança, ver as mulheres saindo da padaria com uma rosa vermelha artificial e barata nas mãos, presente pela sua força, e outros variados adjetivos que a nós foram atribuídos.
 Na segunda metade do século XX, com o aumento das mulheres no mercado de trabalho e na educação superior, houve de acordo com Hobsbawn um reflorescimento do movimento feminista, com isso o discurso de libertação feminina se tornou cada vez mais forte. Embora inicialmente entre as mulheres das classes médias intelectualizadas, atualmente este discurso permeia grande parte dos meios sociais. Nós mulheres temos muitas conquistas a serem comemoradas, devemos isso a nossas antecessoras que tiveram coragem de enfrentar o machismo e o pensamento retrógrado dominante que as caracterizaram pejorativamente de mulheres, mal amadas, amargas e feias, ou seja, feministas.
Mas ainda temos muito que conquistar, sobretudo o direito ao domínio da nossa própria vida, do nosso próprio corpo. A violência contra mulheres está em nosso meio como uma praga que sempre existiu, nos silêncios dos lares, guardada por ditados populares e por uma moral vergonhosa. Segundo estatísticas, dez mulheres morrem a cada dia vítimas da violência; a violência doméstica é a maior causa de morte e invalidez de mulheres entre 16 e 44 anos; a cada 15 segundos uma mulher é agredida no Brasil. Assusta-me ver hoje tão perto de mim mulheres da minha idade sendo agredidas, me assusta mais ainda o descaso das próprias famílias, alegando que isso é um problema do casal. Nós mulheres ainda não temos o direito de sair de um relacionamento, sem que em muitos casos sejamos mortas ou agredidas. Ainda não podemos usar qualquer roupa sem sermos tachadas de “vadias”, “vagabundas”, entre outras agressões. Em situações de estupro ou abuso sexual, as causas ainda são procuradas no comportamento das mulheres, com que roupa estava, se facilitou, se estava bêbada. Dias atrás ouvi, que  se uma mulher estiver em uma festa de carnaval, e for abusada sexualmente, ela não deve reclamar, pois estava disponível. Ora, como pode isso? Como não temos o direito de escolher aonde ir? Independente de onde estivermos ou com que roupa estamos homem nenhum tem o direito de nos tocar sem nossa permissão. Queremos o nosso corpo, queremos escolher o que fazemos com ele.
Nós mulheres ainda ganhamos em média até 30% menos do que os homens desenvolvendo as mesmas atividades, ainda fazemos dupla jornada de trabalho, entre a vida profissional e a realidade doméstica. Afinal de contas a masculinidade tão cultuada pelos homens, seu membro fálico que dá sentido a sua vida é tão frágil que não resiste a limpar uma casa, lavar uma roupa, trocar a fralda de um filho sem ser ameaçado de “mulherzinha”. E como ofende chamar um homem de “mulherzinha”, ser mulher ainda é uma condição tão subalterna que é uma ofensa aos homens. A condição de macho é às vezes tão frágil que precisa ser o tempo todo reafirmada, compartilhando fotos de mulheres nuas pela internet pra provar que é  homem, por exemplo.
Se fosse para eu citar detalhe por detalhe da nossa condição, eu teria que escrever um livro. O dia Internacional da Mulher é uma data marcada por lutas, reivindicações, protestos. Em nada se assemelha a essas homenagens quem ninguém sabe explicar o motivo. Por que não existe o dia do homem? Talvez seja porque o mundo sempre esteve em mãos masculinas, homens nunca precisaram lutar para serem reconhecidos como cidadãos, para aparecerem na história, para serem donos do seu próprio nariz. Diante disso, pensemos nesse dia “8 de Março”, qual é o sentindo das comemorações? Por que estão nos dando parabéns? Enfim...ainda não sei o motivo das rosas distribuídas nesta data...