Costumo
ser bastante curiosa, então quando começaram a aparecer na internet vários
comentários sobre um tal livro classificado como “literatura erótica para
mulheres”, fiquei curiosa para saber do que se tratava. Consegui uma cópia do
“Cinquenta tons de cinza” e comecei a leitura, afinal quando não estou
trabalhando em minha dissertação de mestrado prefiro ler coisas mais...
Fáceis. Na verdade se trata de uma
trilogia, da autora britânica Erika Leonard James, que nasceu na internet, como uma fan fiction da saga dos vampiros. Conforme
indica o nome, fan fictions são
tramas escritas por fãs que, inspirados em obras de sucesso, se aventuram a
desenvolver suas próprias histórias. O “Cinqüenta tons de cinza” é seguido por “Cinquenta
tons mais escuros” e “Cinquenta tons de liberdade”, e narra a história de
Christian Grey e Anastácia Steele, ele é um multimilionário cheio de sombras
escuras em sua história de vida, como o título já indica, e ela é uma estudante
de literatura inglesa recém formada. Anastácia conhece Christian em uma
entrevista feita para o jornal da universidade, na entrevista ela substituía
uma amiga que ficou doente e não pôde comparecer. A partir daí a autora narra o
envolvimento do casal. De início Steele é cotada para ser mais uma submissa em
uma relação sadomasoquista, mas com seu jeito tímido e desengonçado conquista
Grey. Enfim...quem quiser saber mais da história, leia o livro.
O que me importa aqui são as minhas
considerações, esse livro já obteve 47 milhões de cópias vendidas em alguns
meses. A história na minha opinião é fraca, não possui grandes detalhes, nem
grandes acontecimentos, parece apenas um pano de fundo para narrar as
relações sexuais cheias de posições e objetos estranhos. As cenas de sexo são
narradas de forma interminável chegando a serem chatas em muitos casos. A
escrita é mais simples que uma receita de bolo, não exigindo grande esforço de
compreensão por parte do leitor.
Christian Grey é um homem controlador que quer
ter sempre o poder em suas mãos, sente prazer em dominar e açoitar mulheres que
devem assinar um contrato prévio, que dê permissão para que ele o faça. Mas a
grande jogada da autora para amenizar essa situação violenta, é que no contrato
também consta que a “sub” será sustentada por ele em todos os âmbitos da sua
vida, usufruindo dos luxos de uma vida com um milionário.
Anastácia é uma jovem independente que busca
uma carreira profissional, mas à medida que se envolve com Christian se vê
diante de um homem que quer controlar todos os seus passos. Mas a autora
ameniza essa questão definindo Grey como uma vítima, que faz aquilo como
reflexo de sua história triste. O que mais me chama a atenção é que o tempo
todo Anastácia tenta aliar seu trabalho, sua independência e sua vida
profissional ao amor de um homem lindo, rico e controlador. O embate entre a
individualidade da moça e a necessidade de controle de Christian está o tempo
todo em evidência.
O que percebo é que esse livro é mais um
mecanismo discursivo que busca convencer as mulheres e as subjetivarem a uma
vida de subordinação. O amor serve como bandeira que vem antes da existência
feminina, não importa se o cara é louco, cheio de complexos, gosta de dominar e
de surrar mulheres, o que importa é que ele a ama. Nos últimos tempos parece
estar aparecendo uma enxurrada de discursos para convencer as mulheres a voltar
ao modelo patriarcal de “sombra de um homem”. Anastácia representa isso, uma
jovem em busca de sua própria vida e realização pessoal, mas que é sucumbida
por um amor maior do que a própria vida. Apesar de resistir, acaba de certa
forma desistindo de sua independência por um homem que pode sustentá-la em uma
vida luxuosa e a quem ela deve amor, respeito e obediência. Anastácia não se
tornou uma submissa de Christian para as relações sadomasoquistas, mas se
tornou a mulher clássica, a mulher em seu estado natural, submissa ao homem não
por um contrato, mas pela natureza. No fim das contas Anastácia se torna a
senhora Grey, mais uma posse do glorioso Christian, realizada com o seu casamento
e com a maternidade, tudo o que uma mulher supostamente poderia querer.
Na minha opinião, esse livro fez tanto sucesso
por trabalhar com as maiores ilusões impostas para as mulheres, infelizmente
submetidas a discursos que as constituem como donzelas indefesas em busca de um
príncipe, muitas mulheres se espelham nessas histórias, alimentam esperanças de
um dia terem a “sorte” viverem um amor assim. O casamento, o amor e a
maternidade são discursos construídos para a subjetivação feminina, mas ainda
são os maiores anseios de muitas mulheres.
Cinquenta tons de Cinza é mais um discurso de
subjetivação feminina que ajuda a propagar mulheres inertes, amorosas, dóceis,
femininas, fracas e submissas. Gostaria de não escrever mais sobre as formas de
subordinação das mulheres, mas infelizmente cada dia que passa estamos mais
sujeitas a esses discursos, que parecem querer nos mostrar que nosso destino é
esse e que toda luta por uma vida diferente é em vão.
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